A Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania decidiu, na última quinta-feira (26), que a banda pernambucana Ave Sangria será indenizada pelo Estado brasileiro. A medida é um reconhecimento das perseguições sofridas pelo grupo durante a ditadura militar, que censurou seu trabalho em 1974.
Ave Sangria, um dos ícones da psicodelia no Brasil, viu sua trajetória interrompida quando a música “Seu Waldir”, que abordava o amor entre homens, foi considerada uma afronta aos valores da época. Como resultado, todos os discos da banda foram recolhidos das prateleiras das lojas, levando ao cancelamento de um segundo álbum e à desintegração do grupo, que só retornou aos palcos na década de 2010.
De acordo com Manoel Moraes, conselheiro da Comissão de Anistia, o processo que culminou na indenização vitalícia de R$ 2.000 mensais, além de retroativos, trouxe à tona as evidências das injustiças enfrentadas pelos músicos. Moraes destacou que, embora a compensação financeira seja significativa, ela não pode reparar os danos irreparáveis causados pela repressão.
“A interrupção da carreira deles é um dano irreparável. Então, na verdade, o que aconteceu aqui foi o reconhecimento público e o pedido de desculpas pelos atos de exceção praticados contra esses integrantes e contra a cultura popular. Lembrando que a música deles era uma música que buscava construir uma alternativa crítica a tudo aquilo que a sociedade na época vivia, que era o cerceamento da liberdade, a falta de democracia.”
Marco Polo, vocalista da banda, expressou sua emoção ao receber a notícia da anistia, reconhecendo que, apesar de o episódio parecer distante, o trauma da proibição ainda o afetava. Ele ressaltou que, embora não possam recuperar o tempo perdido, a indenização é um passo importante.
“Porque embora eu achasse que aquele episódio já estava soterrado no passado, no fundo talvez eu ainda sentisse um pouco do trauma que foi a proibição do nosso disco e que levou à destruição da banda. É claro que nós não temos mais nossa juventude de volta, nem o dinheiro que ganharíamos se tivéssemos continuado com a nossa carreira, mas mesmo assim é uma boa notícia saber que haverá uma remuneração econômica.”
Após 45 anos, a banda lançou um novo álbum em 2019, marcando seu retorno aos palcos. Almir de Oliveira, membro da formação original, também comentou sobre a sensação de justiça que a indenização traz.
“E retornamos aos palcos depois de tanta emoção, aliviado de tudo isso que aconteceu com a gente. A reparação financeira é importante. Porém, esse reconhecimento dos danos causados e a justiça que foi feita é o nosso maior legado neste momento. Deixo aqui um abraço para todos e todas vocês, e a certeza de que a democracia deve ser preservada agora e para sempre, para que novos episódios como este não venham causar tantos danos ao povo brasileiro.”
Recentemente, em 2023, a Ave Sangria foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, continuando sua trajetória de resistência e criatividade, agora livre das amarras do passado.
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