O Museu da Pessoa acaba de lançar uma coleção de vídeos que traz à tona as histórias de quem vive e respira o futebol de várzea em São Paulo. A iniciativa foi apresentada no Museu do Futebol e reúne relatos de 17 personagens que compartilham suas experiências nesse universo tão rico e diversificado.
José Trajano, um dos curadores do projeto e renomado jornalista esportivo, destaca a pluralidade que permeia o futebol de várzea. Ele afirma:
“Tem pioneiros, tem mulheres que jogam, mulheres que são treinadoras, tem um grande artilheiro que vai completar 1.000 gols, tem muita história interessante nessas seis histórias […] O futebol de várzea tem muita resistência, tem resiliência, consegue sobreviver mesmo diante de tantas mudanças.”
Entre as mudanças que afetam o cenário do futebol amador, a especulação imobiliária se destaca. Um exemplo recente é a demolição do Grêmio Esportivo Cruz da Esperança, que existia desde a década de 1960 no Campo de Marte, para dar lugar a um parque. Trajano menciona as dificuldades que as equipes enfrentam com a redução dos espaços disponíveis para a prática do esporte.
“Ali se reuniam e jogavam várias equipes de futebol de várzea. O que vai sobrar para elas é um espaço muito pequeno, com dinheiro cobrado. A organização diz que um dia fará vários campos de futebol para que futebol seja praticado por essas equipes e outras equipes com gramado sintético, o que perde totalmente a história. Querem transformar o futebol de várzea numa coisa dos novos tempos, que não tem nada a ver com o futebol de várzea raiz.”
Outro relato impactante é o de Soraia Marques Trindade, que, embora nunca tenha jogado, dedicou mais de 20 anos ao futebol feminino entre os clubes Aliança e Bola Preta. Em seu depoimento, disponível no site do museu, Soraia expressa seu desejo por maior reconhecimento e apoio ao futebol feminino:
“Eu gostaria que os governantes dessem mais atenção para o futebol feminino e que eu tivesse meu campo para eu continuar meu trabalho que eu fiz tantos anos da minha vida”
As narrativas do projeto vão além do esporte, revelando a força da comunidade e as formas de resistência às transformações urbanas, além de mostrar como a várzea é parte fundamental da identidade de todos os envolvidos. O futebol de várzea, que começou em campos improvisados ao longo do século 20, é um elemento essencial da cultura popular paulistana.
A coleção digital “Memórias do Futebol de Várzea” pode ser acessada no site museudapessoa.org.
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