A antiga rua João de Barros, localizada na Barra Funda, em São Paulo, agora é oficialmente chamada Rua do Samba. Essa mudança de nome celebra a rica história do samba na região, reconhecendo sua importância cultural e social. A nova denominação foi marcada por uma cerimônia que destaca a relevância do samba como um dos pilares da identidade paulistana.
Desde a década de 1980, a Rua do Samba tem sido um ponto de encontro para rodas de samba, organizadas por Carlos Alberto Tobias, que ajudou a popularizar o gênero musical no local. Mais do que uma simples homenagem, a nova placa simboliza um resgate da memória da população negra que viveu e vive na Barra Funda. A família de Simone Tobias, filha de Carlos Alberto, tem profundas raízes na história do samba, com seu avô, seu Inocêncio, sendo um dos fundadores de um grupo carnavalesco em 1953, que mais tarde se transformou na Escola Camisa Verde e Branco.
“Em 1914, seu Dionísio Barbosa, que era tio da minha avó paterna, funda o grupo carnavalesco Barra Funda. 53, 52 meu avô começa esse movimento para chamar algumas pessoas para fazer parte de um novo cordão e utiliza as cores primárias do grupo Barra Funda para homenagear seu Dionísio. Ele usa o apelido Camisas Verdes, mas insere o branco para que não fosse mais confundido com os integralistas, que não tivesse tanta repressão política à época”.
Os ensaios de samba ocorriam em frente à antiga residência da família Tobias, que já não existe mais. Simone relembra que a especulação imobiliária, que começou a se intensificar no final da década de 1970, afetou o senso de comunidade, forçando muitos moradores a se deslocarem para áreas mais distantes.
“Mesmo a minha família, que na década de 80 nós fomos morar na periferia da Zona Norte, ficava é inviável entender essa loucura e essa higienização, novamente feita para que a negritude fosse colocada nas periferias da cidade”.
O projeto Cartografias de Bambas, coordenado por Nathália Oliveira, surgiu como uma resposta à necessidade de preservar a memória negra do samba na Barra Funda, antes que a gentrificação apague essa rica história. Nathália enfatiza que o samba vai além da musicalidade, representando um forte sentimento de pertencimento ao território.
“O samba, entendido apenas como um som, é esvaziado totalmente de sentido, a construção dessa história. Quando a gente reconhece um bairro que está cada vez mais embranquecendo e apagando o legado e a presença de pessoas negras no território, o reconhecimento da volta do samba, é um momento em que a gente também tem que provocar uma discussão na cidade sobre como as pessoas negras permanecem no seu lugar de memória construída pelos seus antepassados”.
Uma das iniciativas promovidas pelo projeto é o Festival Cartografias de Bambas, que acontece mensalmente na Rua do Samba, reunindo sambistas e coletivos culturais. Nathália observa que o evento tem atraído um público diversificado, com pessoas de diferentes idades e origens, reforçando a conexão da comunidade negra com seu legado cultural.
“O que a gente vem percebendo é que cada vez mais vem pessoas negras de lugares diferentes da cidade, de várias idades. Então, tem muita gente mais velha que já veio aqui e fala que volta a frequentar os nossos eventos, assim como a gente vê novas gerações de pessoas negras vindo e frequentando. A gente vai vendo como que o público cada vez mais vai enegrecendo”.
Antes da Rua do Samba, o Largo da Banana já era um ponto de referência para o samba na Barra Funda, onde estivadores negros se reuniam no final do século XIX. No entanto, a construção de um viaduto na década de 1950 alterou significativamente a paisagem do local.
O “Manifesto Rua do Samba da Barra Funda”, parte do projeto Cartografias de Bambas, destaca que a memória é uma questão de política pública, e que a Rua do Samba deve ser preservada como um “patrimônio vivo, chão de memória e encruzilhada de futuros”.
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